Casas Bahia e Habib's em crise: o que os calotes bilionários revelam sobre os juros altos no Brasil
Meta descrição: Casas Bahia entra com recuperação judicial após prejuízo de R$ 10,1 bilhões e o Habib's negocia dívida de R$ 312 milhões. Entenda os efeitos da Selic alta sobre o varejo brasileiro.
DÍVIDAS E CRÉDITO
8/14/20265 min read


Duas marcas que fazem parte do dia a dia de milhões de brasileiros voltaram a ocupar as manchetes econômicas nas últimas semanas, mas por um motivo preocupante. A Casas Bahia protocolou pedido de recuperação judicial depois de registrar um prejuízo recorde, enquanto o grupo controlador do Habib's obteve na Justiça um prazo para renegociar uma dívida bancária que ultrapassa R$ 300 milhões. Os dois casos, apesar de setores diferentes, têm um denominador comum: o peso dos juros altos sobre empresas que se endividaram fortemente nos últimos anos e agora enfrentam dificuldade para honrar seus compromissos.
O prejuízo bilionário que levou a Casas Bahia à recuperação judicial
No fim de semana de 16 de agosto, a Casas Bahia protocolou na Justiça de São Paulo um pedido de recuperação judicial que abrange a companhia e nove subsidiárias, entre elas a Cnova, a ASAP Log e a fabricante de móveis Bartira. A decisão veio poucos dias depois de a varejista divulgar um prejuízo líquido de R$ 10,1 bilhões no segundo trimestre de 2026, com passivos totais de R$ 17,3 bilhões. No balanço, a própria administração reconheceu existir incerteza relevante sobre a capacidade de continuidade das operações, uma sinalização rara e grave em relatórios financeiros de companhias abertas.
Antes do pedido formal, a empresa já vinha promovendo um ajuste drástico em sua estrutura. Entre os dias 13 e 14 de agosto, foram fechadas 298 lojas, quase 29% da rede que a companhia tinha ao final de 2025 e cerca de 1,9 mil funcionários foram desligados. O movimento não é o primeiro esforço de reestruturação da varejista: em 2024, a empresa já havia renegociado cerca de R$ 4,1 bilhões em dívidas por meio de uma recuperação extrajudicial, alongando os prazos de pagamento. Segundo analistas do setor, esse ajuste anterior não foi suficiente diante da deterioração das vendas, do encarecimento do crédito e da desconfiança crescente de fornecedores e instituições financeiras.
Habib's negocia dívida de R$ 312 milhões sob proteção judicial
Enquanto a Casas Bahia avança para uma recuperação judicial completa, o Grupo Gennius, controlador das marcas Habib's, Ragazzo, Mita e Tendall Grill, obteve uma medida cautelar que suspende por 60 dias as cobranças e execuções relacionadas a um endividamento bancário superior a R$ 300 milhões. A proteção, concedida pela 1ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo, abrange 174 empresas do grupo e também os sócios administradores da rede.
De acordo com o processo, a companhia atribui parte da fragilidade financeira aos efeitos da pandemia entre 2020 e 2022, à mudança nos hábitos de consumo impulsionada pelas plataformas digitais e a um cenário macroeconômico considerado extremamente adverso. O prazo concedido pela Justiça é improrrogável e termina no fim de agosto, período em que o grupo precisa fechar um acordo com bancos e outros credores em mediação. Apesar da turbulência financeira, a empresa afirma que todas as unidades seguem operando normalmente e que os contratos de franquia não sofrem alteração imediata.
Selic alta: o fio condutor entre os dois casos
Os problemas de Casas Bahia e Habib's não são episódios isolados, mas sintomas de um cenário mais amplo enfrentado pelo varejo e pelo setor de alimentação no Brasil. Durante a pandemia, com juros baixos e crédito farto, diversas empresas ampliaram significativamente seu endividamento para sustentar operações e investimentos. O problema é que, quando a Selic voltou a subir para conter a inflação, o custo dessas dívidas disparou, pressionando o caixa e o capital de giro de companhias que já operavam com margens apertadas.
Mesmo com o ciclo recente de cortes, a Selic segue em patamar elevado. Em agosto de 2026, o Comitê de Política Monetária reduziu a taxa básica de juros para 14% ao ano, o quarto corte consecutivo no período, mas o Banco Central mantém um discurso cauteloso e considera o nível ainda restritivo para a atividade econômica. Na prática, isso significa que o custo do crédito para empresas continua alto, especialmente para negócios com histórico de inadimplência ou balanços mais frágeis, e que a transmissão dos cortes de juros para o crédito corporativo costuma ser lenta.
Outro fator que agrava a situação é o comportamento mais cauteloso do sistema financeiro na concessão de novos empréstimos. Desde o escândalo contábil da Americanas, em 2023, bancos e investidores passaram a monitorar com mais rigor o nível de endividamento e a governança das companhias antes de renovar linhas de crédito. Essa postura mais conservadora dificulta a rolagem de dívidas justamente das empresas que mais precisam desse fôlego, criando um efeito em cadeia que amplia o risco de recuperações judiciais no varejo e em outros setores intensivos em capital de giro.
O que esses casos dizem sobre a economia brasileira?
Os episódios de Casas Bahia e Habib's reacendem o debate sobre a saúde financeira das empresas brasileiras, mas não devem ser interpretados isoladamente como um retrato de colapso generalizado da economia. Trata-se de companhias com estruturas de capital específicas, decisões de endividamento tomadas em outro contexto de juros e desafios competitivos próprios de seus setores, como o avanço do comércio eletrônico e a mudança nos hábitos de consumo dos brasileiros.
Ainda assim, os casos servem de alerta sobre os efeitos concretos de um ciclo prolongado de juros elevados sobre empresas endividadas, além de reforçar a importância de uma gestão financeira criteriosa em ambientes de crédito mais caro e escasso. Para investidores, momentos de forte pessimismo setorial também costumam separar companhias estruturalmente fragilizadas de negócios sólidos negociados a preços descontados, o que exige análise criteriosa de balanços, geração de caixa e nível de endividamento antes de qualquer decisão.
Com o Copom sinalizando um ciclo gradual de flexibilização monetária e o mercado projetando a Selic perto de 13,75% ao ano no fim de 2026, o custo do crédito deve continuar caindo aos poucos, mas de forma lenta e ainda distante dos patamares que aliviariam de forma imediata empresas fortemente alavancadas. Nesse contexto, o desfecho da recuperação judicial da Casas Bahia e da renegociação do Habib's deve funcionar como termômetro para avaliar até que ponto o varejo brasileiro conseguirá se adaptar a um cenário de dinheiro mais caro nos próximos meses.
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